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A proteção do Código de Defesa do Consumidor (CDC) às empresas.

Conhecidas como pessoas jurídicas, o tema que gera discussões recorrentes nos tribunais e apresenta diferenças específicas. Embora o CDC seja amplamente associado à proteção de consumidores individuais (pessoas físicas), a legislação brasileira também permite a sua aplicação em favor das empresas, sob certas condições.

O artigo 2º do CDC inclui tanto pessoas físicas quanto jurídicas na definição de consumidor, desde que o bem ou serviço seja adquirido como “destinatário final”.

No entanto, o conceito de destinatário final não é tão simples, e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem adotado a chamada “teoria finalista mitigada” para avaliar quando uma pessoa jurídica pode se enquadrar como consumidora e, assim, ser beneficiada pelas normas protetivas do CDC.

1. A Teoria Finalista Mitigada e a Vulnerabilidade da Pessoa Jurídica

De acordo com a “teoria finalista” pura, o CDC se aplicaria apenas às situações em que o consumidor é o destinatário final do bem ou serviço, ou seja, aquele que adquire um produto ou serviço para uso próprio, sem a intenção de integrá-lo em sua atividade produtiva.

No entanto, a jurisprudência brasileira evoluiu para uma versão mais flexível dessa teoria, conhecida como teoria finalista mitigada. A ideia central dessa teoria é que, mesmo quando o bem ou serviço adquirido for utilizado para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa, o CDC poderá ser aplicado caso fique demonstrada a vulnerabilidade da pessoa jurídica em relação ao fornecedor.

Esse entendimento foi consolidado em decisões como a do julgamento do REsp 2.020.811, no qual a ministra Nancy Andrighi explicou que o STJ adota a teoria finalista mitigada ao considerar que o consumidor pode ser tanto o destinatário final de um produto ou serviço quanto aquele que, embora integre a cadeia produtiva, demonstre uma vulnerabilidade em relação ao fornecedor.

Essa vulnerabilidade pode ser técnica, econômica ou informacional, e deve ser avaliada no contexto de cada caso concreto. Para as pessoas físicas, a vulnerabilidade é presumida, enquanto as empresas precisam demonstrar a sua situação de hipossuficiência.

2. Casos em que o STJ Reconheceu a Aplicação do CDC para Pessoas Jurídicas

Diversos casos julgados pelo STJ exemplificam como essa teoria finalista mitigada é aplicada na prática. Um exemplo importante é o julgamento do REsp 2.020.811, que envolveu uma empresa de venda de ingressos eletrônicos para eventos e uma sociedade que prestava serviços de intermediação de pagamentos online.

A empresa de ingressos alegou que estava em situação de vulnerabilidade em relação à intermediadora, que tinha uma atuação global, e que o contrato entre as partes era de adesão. No entanto, a Terceira Turma do STJ decidiu que não havia sido demonstrada a vulnerabilidade necessária para caracterizar a empresa como consumidora. Como o serviço adquirido estava diretamente relacionado à atividade empresarial da autora da ação, não havia elementos suficientes para aplicar o CDC ao caso.

Outro exemplo foi o julgamento do REsp 1.497.574, em que uma sociedade empresária contratou um empréstimo bancário para impulsionar seus negócios. O STJ entendeu que, em situações como essa, os contratos de empréstimo são classificados como insumos para o desenvolvimento da atividade empresarial, o que afasta a aplicação do CDC.

Novamente, a exceção seria se a empresa conseguisse demonstrar uma vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica. Esse entendimento reflete a linha de raciocínio adotada pelo tribunal de que o CDC não se aplica automaticamente a todas as transações envolvendo pessoas jurídicas, mas apenas quando a vulnerabilidade está presente de forma clara.

3. Quando a Vulnerabilidade é Reconhecida: Aquisição de Aeronave e Contratação de Seguro.

Em contrapartida, o STJ reconheceu a vulnerabilidade de uma pessoa jurídica no julgamento do AREsp 1.321.083, que envolveu a aquisição de uma aeronave por uma empresa administradora de imóveis. Nesse caso, a empresa compradora foi considerada destinatária final do bem, já que a aeronave seria utilizada para atender às necessidades da própria pessoa jurídica, sem ser integrada à sua atividade produtiva.

A partir dessa constatação, o tribunal aplicou as regras do CDC, incluindo a competência para o julgamento da demanda no domicílio da consumidora, o que facilitou o acesso à justiça para a empresa compradora.

Outro caso relevante foi o julgamento do REsp 1.660.164, em que uma pessoa jurídica contratou um seguro para proteger o seu patrimônio. O STJ decidiu que, nesse caso, a empresa era a destinatária final dos serviços securitários, uma vez que contratou o seguro para proteger um de seus caminhões.

Como o bem assegurado era usado diretamente pela empresa e não fazia parte de uma cadeia produtiva, o tribunal entendeu que as normas do CDC deveriam ser aplicadas, garantindo maior proteção à contratante.

4. O Papel da Vulnerabilidade Técnica, Jurídica e Econômica.

A vulnerabilidade é um conceito chave para determinar quando uma pessoa jurídica pode ser considerada consumidora sob o CDC. No caso do REsp 2.001.086, a ministra Nancy Andrighi reiterou que, nos contratos bancários para obtenção de capital de giro, o CDC não se aplica, uma vez que o capital de giro é utilizado para aumentar a capacidade produtiva e lucrativa da empresa.

Portanto, o capital de giro não é um bem de consumo final. Entretanto, a ministra destacou que, se houvesse evidências de vulnerabilidade técnica ou econômica da empresa, a análise poderia ser diferente.

Esse princípio foi reafirmado também no AREsp 1.392.636, que envolveu uma instituição de ensino superior e uma seguradora. A universidade contratou um seguro para proteger seu patrimônio e acionou a cobertura após uma tempestade que danificou suas instalações.

A seguradora negou a indenização com base em uma cláusula contratual que estipulava uma velocidade mínima para os ventos caracterizarem um vendaval. O tribunal, no entanto, considerou a cláusula abusiva e aplicou o CDC para garantir a cobertura à instituição de ensino, reafirmando que a pessoa jurídica que contrata seguro para proteger seu patrimônio é considerada destinatária final dos serviços.

5. A Importância do CDC para Pequenas e Médias Empresas.

Embora a vulnerabilidade não seja presumida para pessoas jurídicas, o CDC tem sido uma ferramenta importante para pequenas e médias empresas que, em determinadas situações, encontram-se em posição de desvantagem em relação à grandes fornecedores ou prestadores de serviços.

Essas empresas muitas vezes não possuem o conhecimento técnico ou os recursos necessários para contestar cláusulas contratuais abusivas ou práticas comerciais desleais, o que justifica a aplicação do CDC para equilibrar a relação de consumo.

A jurisprudência do STJ demonstra que a hipossuficiência pode ser caracterizada por uma série de fatores, incluindo a dependência econômica da pessoa jurídica em relação ao fornecedor, a ausência de capacidade técnica para entender plenamente os termos de um contrato, ou a falta de alternativas no mercado que levem a uma situação de adesão.

Em todos esses casos, o objetivo final do CDC – proteger o consumidor em situação de vulnerabilidade – é cumprido.

6. Conclusão.

A aplicação do Código de Defesa do Consumidor a pessoas jurídicas é uma questão complexa, que envolve a análise detalhada de cada caso concreto.

O STJ tem se mostrado cauteloso na aplicação da teoria finalista mitigada, exigindo que as empresas demonstrem sua vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica para se beneficiarem das normas protetivas do CDC.

Ao mesmo tempo, reconhece que, em determinadas situações, as empresas – especialmente as pequenas e médias – podem estar em desvantagem em relação a fornecedores ou prestadores de serviços, o que justifica a aplicação da legislação consumerista.

Casos como o da aquisição de aeronaves e contratação de seguros mostram que, mesmo em situações envolvendo transações empresariais, o CDC pode ser aplicado para proteger a pessoa jurídica quando ela atua como destinatária final de um bem ou serviço.

Por outro lado, em contratos bancários e operações que integram a atividade produtiva da empresa, como o capital de giro, o STJ tem reforçado que o CDC não deve ser aplicado automaticamente, a menos que a vulnerabilidade seja comprovada.

Em síntese, a proteção do consumidor no âmbito empresarial exige um exame minucioso das circunstâncias de cada relação contratual, com ênfase na análise da vulnerabilidade da pessoa jurídica.

Essa abordagem garante que o CDC cumpra seu papel de equilibrar as relações econômicas, estendendo sua proteção também às empresas que se encontram em posição de desvantagem, sem, contudo, banalizar sua aplicação em qualquer relação comercial.

https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2024/08092024-Consumidor-pessoa-juridica-quando-as-empresas-podem-ter-a-protecao-do-CDC.aspx

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