Sumário
ToggleAnálise do Recurso Especial nº 1909271/PR e Seus Impactos no Direito Comparecimento Espontâneo no CPC: Quando o Prazo para Contestação Começa a Correr?
1. Introdução.

O Direito Processual Civil brasileiro passou por significativas transformações com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015 (CPC/2015).
Entre as diversas inovações introduzidas, o instituto do comparecimento espontâneo do réu ganhou novos contornos, gerando importantes debates doutrinários e jurisprudenciais.
O Recurso Especial nº 1909271/PR, julgado pelo Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, representa um marco nessa discussão, ao enfrentar a questão sobre o momento exato em que começa a fluir o prazo para apresentação da contestação quando o réu se manifesta nos autos antes mesmo da citação formal.
Este artigo tem como objetivo analisar minuciosamente o referido julgado, examinando seus fundamentos legais, os princípios processuais envolvidos e os impactos práticos da decisão. Para tanto, será realizada uma abordagem sistemática, partindo da conceituação do comparecimento espontâneo, passando pela análise do caso concreto e culminando nos reflexos da decisão para a prática forense.
2. O Instituto do Comparecimento Espontâneo no CPC/2015.

2.1. Conceito e Finalidade.
O comparecimento espontâneo está previsto no art. 239, §1º, do CPC/2015, que estabelece:
“O comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a falta ou a nulidade da citação, sujeitando-o aos efeitos do processo, como se válida fosse, e o prazo para apresentação de contestação fluirá a partir da data do comparecimento.”
Trata-se de um mecanismo processual que visa:
- Regularizar o processo quando há vícios na citação;
- Garantir economia processual, evitando a repetição de atos;
- Assegurar o contraditório, permitindo que o réu, mesmo não citado validamente, possa se defender.
2.2. Natureza Jurídica.
A doutrina majoritária entende que o comparecimento espontâneo possui natureza jurídica de ato processual unilateral, que produz efeitos ex nunc, ou seja, a partir de sua realização. Sua função precípua é suprir defeitos na citação, equiparando-se aos efeitos de uma citação válida.
3. Análise do Caso Concreto: Recurso Especial nº 1909271/PR.

3.1. Contexto Fático.
O caso em análise envolvia uma ação revisional de contrato de mútuo bancário ajuizada por Paulo Henrique Martho dos Reis contra o Banco Santander (Brasil) S.A.
O ponto central da controvérsia residia no fato de que o advogado do banco havia se habilitado nos autos antes mesmo da análise da petição inicial e da designação de audiência de conciliação.
O magistrado de primeiro grau considerou que esse comparecimento antecipado configurava comparecimento espontâneo e, como o banco não apresentou contestação no prazo decorrido a partir dessa data, decretou sua revelia.
O Tribunal de Justiça do Paraná, no entanto, reformou a decisão, entendendo que o prazo para contestação só começaria a fluir após a citação válida ou dispensa da audiência de conciliação.
3.2. Questão Jurídica Debatida.
A questão jurídica central submetida ao STJ era:
“A apresentação do réu no instante inicial da fase postulatória, em momento anterior à decisão do magistrado sobre o recebimento da inicial e à designação de audiência de conciliação, deflagra automaticamente o prazo para o oferecimento de contestação, nos termos do art. 239, §1º, última parte, do CPC/2015?”
3.3. Fundamentação do STJ.
O STJ, ao negar provimento ao recurso, adotou os seguintes fundamentos:
- Prioridade da fase conciliatória: O CPC/2015 estabelece que a solução consensual deve ser tentada antes da defesa (art. 334);
- Proteção ao devido processo legal: O réu não pode ser surpreendido com prazos que começam a correr antes mesmo de definida a via processual;
- Boa-fé processual: O sistema processual não pode penalizar o réu que comparece espontaneamente buscando cooperar com a justiça;
- Interpretação sistemática: O art. 239 deve ser lido em conjunto com o art. 335, que regula o início do prazo para contestação.
4. Princípios Processuais Envolvidos.

4.1. Devido Processo Legal (Art. 7º, CPC).
O princípio do devido processo legal exige que o réu tenha ampla oportunidade de defesa, o que inclui conhecimento claro sobre quando começa seu prazo para contestar.
4.2. Boa-Fé Processual (Art. 5º, CPC).
A boa-fé objetiva impõe que as partes ajam com lealdade processual. Nesse sentido, não seria razoável que o simples comparecimento antecipado do réu prejudicasse seu direito de defesa.
4.3. Efetividade Processual.
O CPC/2015 busca otimizar a tramitação processual. Permitir que o prazo começasse a correr antes da fase conciliatória poderia gerar atos processuais desnecessários.
5. Impactos na Prática Forense.

A decisão tem importantes reflexos para a atuação profissional:
5.1. Para advogados de réus:
- A apresentação antecipada não implica risco de perda de prazo;
- Deve-se aguardar a citação formal ou dispensa da conciliação.
5.2. Para advogados de autores:
- Não podem arguir revelia com base em comparecimento prévio;
- Devem respeitar a fase conciliatória antes de exigir a contestação.
5.3. Para juízes:
- Devem assegurar que o réu tenha ciência clara do início do prazo defensivo;
- Precisam observar a sequência lógica das fases processuais.
6. Conclusão.

O julgamento do REsp 1909271/PR representa importante avanço na interpretação do CPC/2015, harmonizando o instituto do comparecimento espontâneo com os princípios do devido processo legal e da boa-fé.
Ao decidir que o prazo para contestação só tem início após a fase conciliatória, o STJ:
- ✔ Protegeu o direito de defesa;
- ✔ Respeitou a lógica do sistema processual;
- ✔ Evitou armadilhas processuais que poderiam prejudicar o réu.
Para os operadores do direito, a lição é clara: embora o comparecimento antecipado seja sempre recomendável como demonstração de cooperação, ele não pode ser utilizado para cercear o direito de defesa.
A segurança jurídica exige que os prazos processuais sejam claros e previsíveis, começando apenas quando efetivamente configuradas as condições para o exercício da defesa.