Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

A Indenização por Dano Moral Decorrente do Atraso Rescisório: Análise do TST sob a Égide do Precedente Vinculante.


Entenda a posição do TST sobre o dano moral no atraso de verbas rescisórias e FGTS. Este artigo analisa o julgado TST-RR-0000726-37.2023.5.09.0892, a Súmula 333 e o Tema 143 de RRR, explicando por que a comprovação do dano extrapatrimonial é indispensável.


Introdução: A Evolução da Jurisprudência e a Necessária Prova do Dano.

O Direito do Trabalho, enquanto instrumento de concretização de direitos fundamentais sociais, frequentemente se depara com a tensão entre a violação de uma obrigação contratual/legal e a efetiva ocorrência de um dano extrapatrimonial indenizável.

Um dos temas mais recorrentes e sensíveis nesse contexto diz respeito à possibilidade de se condenar um empregador ao pagamento de indenização por danos morais em virtude do mero atraso ou inadimplemento no pagamento das verbas rescisórias e na irregularidade dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

A análise do Recurso de Revista nº TST-RR – 0000726-37.2023.5.09.0892, julgado pela 1ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST), serve como paradigma para compreender a posição atual e majoritária da Corte Superior sobre a matéria.

Este artigo objetiva esmiuçar os fundamentos jurídicos que levaram ao non liquet do recurso, demonstrando como a jurisprudência, pacificada em torno do Tema 143 dos Recursos de Revista Repetitivos (RRR), exige a demonstração concreta de um dano à esfera moral do empregado, para além do simples prejuízo econômico, que já encontra reparação específica na legislação.


1. O Caso Concreto: A Negativa de Conhecimento do Recurso de Revista.

No caso em comento, o recorrente, Leandro Francisco Bolino, pleiteava a condenação dos réus ao pagamento de indenização por danos morais, argumentando que o atraso no pagamento das verbas rescisórias e a irregularidade nos depósitos do FGTS configurariam, por si sós, ato ilícito indenizável, com base nos arts. 186 e 927 do Código Civil, e ofensa a princípios constitucionais (arts. 1º, III e IV, e 5º, X, da CF/88).

O Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, no entanto, negou provimento ao pedido, entendendo que a mera inadimplência, sem a comprovação de circunstâncias objetivas que demonstrassem uma ofensa aos direitos da personalidade (honra, imagem, dignidade), não era suficiente para caracterizar o dano moral.

Ao se recorrer ao TST, a 1ª Turma, seguindo o voto do Ministro Relator Luiz José Dezena da Silva, não conheceu do Recurso de Revista.

A expressão “não conhecido” significa que o Tribunal sequer adentrou no mérito da questão, pois entendeu existir um obstáculo processual intransponível: a ausência de transcendência diante de jurisprudência já uniformizada e vinculante.


2. O Alicerce Legal e a Distinção entre Dano Material e Dano Moral.

A fundamentação do TST assenta-se em uma rigorosa distinção entre as esferas patrimonial e moral do trabalhador.

  • Dano Material/Patrimonial: É o prejuízo econômico direto. No caso rescisório, consiste no valor das verbas não pagas (saldo de salário, férias proporcionais, 13º salário, aviso-prévio, etc.) e na ausência dos depósitos do FGTS. A legislação trabalhista já prevê mecanismos de reparação específicos e punitivos para essa mora:

  • Art. 477, § 8º, da CLT: Impõe multa de um salário ao empregador que não pagar a rescisão no prazo legal.
  • Art. 467 da CLT: Garante o pagamento com acréscimo de 50% sobre o valor das férias em caso de concessão extemporânea (aplicável por analogia a outras verbas em certos entendimentos).
  • Multa do Art. 28 da Lei 8.036/90 (Lei do FGTS): Estipula multa de 10% sobre os depósitos não realizados.

  • Dano Moral/Extrapatrimonial: É a lesão a direitos da personalidade, como a honra, a dignidade, a imagem e a vida privada, que causa angústia, aflição, vexame ou humilhação. Sua configuração não é presumida pela simples quebra de uma obrigação contratual. Conforme estabelece o art. 186 do Código Civil, “Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. O art. 927 complementa ao dispor sobre a obrigação de reparar o dano. A chave interpretativa adotada pelo TST é que a “violação de direito” e o “dano” devem ser analisados de forma conjunta e específica.


3. A Jurisprudência Pacificada: O Tema 143 dos RRRs e a Súmula 333 do TST.

O grande marco para a uniformização do entendimento foi a edição do Tema 143 da Tabela de Recursos de Revista Repetitivos.

A tese firmada, com efeito vinculante, é cristalina:

“A ausência ou o atraso na quitação das verbas rescisórias, por si só, não configura dano moral indenizável, sendo necessária a comprovação de lesão concreta aos direitos de personalidade do trabalhador.“

No caso do atraso rescisório, o TST não reconhece a presunção do dano moral (dano in re ipsa), pois entende que o ordenamento já oferece reparação adequada ao prejuízo.

Para que uma terceira sanção (além do pagamento das verbas com correção e das multas legais) seja aplicada, é imperioso que o trabalhador demonstre, nos autos, fatos concretos que evidenciem o constrangimento, como a impossibilidade de prover o sustento familiar de forma grave, a exposição pública vexatória ou a negativa de crédito em instituição financeira diretamente ligada à falta do TRCT (Termo de Rescisão do Contrato de Trabalho) quitado.


4. A Ausência de Transcendência e a Preclusão do Debate.

O conceito de “transcendência” é crucial para a admissibilidade dos Recursos de Revista no TST. Conforme o art. 896, § 7º, da CLT, o recurso só será conhecido se a questão discutida apresentar:

  • Transcendência Jurídica: Envolva questão nova de direito.
  • Transcendência Política: Contrariar jurisprudência pacífica ou súmula do TST.
  • Transcendência Econômica: Envolva valores significativos.
  • Transcendência Social: Repercussão geral sobre a coletividade trabalhista.

No julgado em análise, o Ministro Relator concluiu que, diante da pacificação do tema pelo Tema 143, o recurso não possuía nenhuma das modalidades de transcendência.

A decisão do TRT estava em estrita conformidade com o entendimento vinculante do TST, não havendo, portanto, violação a lei federal ou contradição que justificasse a reapreciação da matéria. Aplicou-se, assim, o art. 896, § 7º, da CLT, e a Súmula 333, como obstáculos ao conhecimento do recurso.


Conclusão: A Busca pelo Equilíbrio entre a Proteção ao Trabalhador e a Segurança Jurídica.

wooden interior of a courthouse
Photo by Christian Wasserfallen on Pexels.com

O posicionamento do TST, exemplificado no julgamento do processo TST-RR – 0000726-37.2023.5.09.0892, reflete um amadurecimento da jurisprudência trabalhista.

Longe de desproteger o empregado, a Corte busca um equilíbrio hermenêutico: reconhece e repara integralmente o dano material com os instrumentos legais já existentes (verbas atualizadas e multas), mas exige um lastro probatório mínimo e objetivo para a concessão da indenização por dano moral, evitando sua banalização.

A exigência de comprovação de um dano concreto à esfera extrapatrimonial fortalece a segurança jurídica, impede condenações automáticas e assegura que a indenização por danos morais cumpra sua verdadeira função: a de reparar uma dor, um sofrimento, uma ofensa à dignidade que, de fato, transcendeu o mero prejuízo financeiro.

Aos operadores do direito, cabe orientar seus clientes no sentido de que, em demandas dessa natureza, a petição inicial deve vir acompanhada de provas robustas e específicas do constrangimento sofrido, sob pena de ver o pedido julgado improcedente à luz da jurisprudência dominante. Portanto, para êxito da demanda,necessário provas claras do constrangimento vivenciado.


Referências Legais e Jurisprudenciais:


Dicionário Jurídico do Julgamento

Acórdão:

Decisão proferida por um tribunal colegiado (mais de um julgador).

Ato Ilícito:

Ação ou omissão que viola um direito e causa dano a outrem, nos termos do art. 186 do CC.

Dano Moral (in re ipsa):

Dano extrapatrimonial que se presume pela própria gravidade do ato, independente de prova. O TST não o reconhece no atraso rescisório.

Direitos da Personalidade:

Direitos inerentes à pessoa humana, como honra, imagem, intimidade, vida privada e dignidade, garantidos pelo art. 5º, X, da CF/88.

FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço):

Poupança aberta pela empresa em nome do empregado, com depósitos mensais.

Não Conhecimento:

Decisão que nega seguimento a um recurso por falta de um pressuposto de admissibilidade (ex.: ausência de transcendência), sem analisar o mérito.

Ônus da Prova:

Incumbência de provar os fatos alegados. Conforme a Súmula 333 do TST, no dano moral, este ônus é do autor, salvo raras exceções.

Precedente Vinculante:

Decisão judicial que serve de parâmetro obrigatório para casos futuros semelhantes, como o Tema 143 dos RRRs.

Recurso de Revista:

Recurso cabível ao TST para questionar violação a lei federal ou contradição com jurisprudência do próprio TST.

Súmula:

Decisão que resume a interpretação pacífica ou majoritária de um tribunal sobre uma questão de direito.

Transcendência:

Requisito de admissibilidade do Recurso de Revista que exige que a questão discutida ultrapasse os interesses das partes no caso concreto.

Verbas Rescisórias:

Conjunto de valores devidos ao empregado por ocasião do término do contrato de trabalho.

Non Liquet.

“Non liquet” é uma expressão em latim que significa “não está claro” e, no direito, refere-se a uma situação em que um juiz não consegue proferir uma decisão devido à falta de provas ou à ausência de leis aplicáveis ao caso. Essa prática no brasil é proibida, já que os juízes no caso de lacuna na lei, deve julgar por analogia,


Tags e Palavras-Chave: Processo nº TST-RR – 0000726-37.2023.5.09.0892, Dano Moral, Atraso Rescisório, FGTS, TST, Jurisprudência, Tema 143 RRR, Súmula 333 TST, Transcendência, Recurso de Revista, Direito do Trabalho, CLT, Código Civil, Indenização, Direitos da Personalidade, Precedente Vinculante.

Comente o que achou. Deixe a sua crítica, elógio, sugestão, pois sua participação é muiro importante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja Mais

Artigos Relacionados:

Servidor Público com Vínculo Contínuo: O Direito de Escolha entre Regimes Previdenciários.

Servidor Público com Vínculo Contínuo: O Direito de Escolha entre Regimes Previdenciários.

Entenda a decisão do STF que garante ao servidor público com vínculo contínuo o direito de optar entre o regime de previdência complementar e o sistema anterior, com base no

Usucapião Especial Urbana e a Perspectiva de Gênero: Análise do Art. 183 da CRFB/1988 e Art. 1.240 do Código Civil sob a Ótica da Resolução CNJ n. 492/2023.

Usucapião Especial Urbana e a Perspectiva de Gênero: Análise do Art. 183 da CRFB/1988 e Art. 1.240 do Código Civil sob a Ótica da Resolução CNJ n. 492/2023.

Artigo doutrinário sobre usucapião especial urbana, analisando requisitos constitucionais e legais, animus domini, interversio possessionis e julgamento com perspectiva de gênero conforme Resolução CNJ n. 492/2023, com base em jurisprudência

Usucapião entre Ascendentes e Descendentes: Limites da Posse Familiar e o Entendimento do STJ.

Usucapião entre Ascendentes e Descendentes: Limites da Posse Familiar e o Entendimento do STJ.

Entenda por que o STJ nega, em regra, a usucapião extraordinária de imóvel de ascendente ocupado por descendente. Análise da posse precária, do animus domini e das exceções jurisprudenciais. PALAVRAS

Sursis Obrigatório em Violência Doméstica: Grupos Reflexivos e o Poder-Dever do Magistrado.

Sursis Obrigatório em Violência Doméstica: Grupos Reflexivos e o Poder-Dever do Magistrado.

Entenda como o STJ firmou o poder-dever do juiz de impor grupos reflexivos como condição do sursis em casos de violência doméstica, com base no art. 79 do CP e

A Reconvenção no Processo do Trabalho: O Contrato como Liame de Conexão e a Superação da Exigência de Afinidade Temática.

A Reconvenção no Processo do Trabalho: O Contrato como Liame de Conexão e a Superação da Exigência de Afinidade Temática.

Entenda como a jurisprudência do TST consolidou a reconvenção no processo do trabalho, superando a exigência de afinidade temática. Análise do art. 343 do CPC, do contrato de trabalho como

O Novo Regime de Custas do Recurso Especial: A Lei 15.498/2026 e a Virada Proporcional no STJ.

O Novo Regime de Custas do Recurso Especial: A Lei 15.498/2026 e a Virada Proporcional no STJ.

Entenda como a Lei 15.498/2026 transformou a cobrança de custas do recurso especial no STJ, substituindo valores fixos por alíquotas de 2% a 4% sobre o valor da causa, com

A Resilição Unilateral de Conta-Corrente por Iniciativa da Instituição Financeira: Análise do Tema 1.119 do STJ.

A Resilição Unilateral de Conta-Corrente por Iniciativa da Instituição Financeira: Análise do Tema 1.119 do STJ.

Análise doutrinária e jurisprudencial do Tema 1.119 do STJ, que fixou a inaplicabilidade do art. 39, IX, do CDC à resilição unilateral de conta-corrente bancária, com base na legislação especial

Perda pequena de capacidade não afasta direito a pensão mensal de operador de máquinas.

Perda pequena de capacidade não afasta direito a pensão mensal de operador de máquinas.

Entenda por que o TST garante pensão mensal ao trabalhador com perda parcial mínima da capacidade laborativa, mesmo com nexo concausal e aptidão para outras funções, com base no art.

A Gravação Ambiental como Prova no Processo Civil Brasileiro: A Licitude da Captação por Consumidor no Ambiente Corporativo à Luz do Estatuto da Advocacia.

A Gravação Ambiental como Prova no Processo Civil Brasileiro: A Licitude da Captação por Consumidor no Ambiente Corporativo à Luz do Estatuto da Advocacia.

Análise doutrinária e jurisprudencial sobre a admissibilidade da gravação ambiental feita por consumidor no departamento jurídico de empresa, à luz do REsp 1.969.798/DF, do art. 7º da Lei 8.906/94 e

Do Afeto ao Direito das Coisas: A Custódia Compartilhada de Animais de Estimação na Jurisprudência do STJ.

Do Afeto ao Direito das Coisas: A Custódia Compartilhada de Animais de Estimação na Jurisprudência do STJ.

Análise doutrinária e jurisprudencial sobre a custódia compartilhada de animais de estimação após a dissolução da união estável, com base no REsp 2.214.336/DF do STJ, que afastou a aplicação analógica