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Isenção do IRPF para Portadores de HIV Independentemente dos Sintomas da AIDS.

Decisão do STJ garante isenção do IRPF para portadores de HIV independente de sintomas da AIDS. Entenda a fundamentação jurídica, como requerer o direito e obter restituição dos últimos 5 anos. Análise completa do REsp 1.808.546-DF.

Palavras-chave: Portador HIV isenção, IRPF aposentadoria, AIDS direito tributário, Recurso Especial 1808546, Súmula 627 STJ, como pedir isenção IRPF, restituição indébito, moléstia grave.

Tags: Isenção IRPF, HIV AIDS, Direito Tributário, STJ Jurisprudência, Saúde e Direito, Princípio da Isonomia, Lei 7.713/88, Restituição Imposto de Renda, Direitos do Aposentado.


Sumário

1. Introdução: Uma Questão de Justiça Tributária e Dignidade.

O Recurso Especial nº 1.808.546-DF, julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), representa um marco na proteção aos direitos fundamentais. O caso, que envolveu um policial militar aposentado do Distrito Federal diagnosticado como soropositivo para o vírus HIV, trouxe à tona um profundo debate jurídico: para fazer jus à isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), sobre os proventos de aposentadoria, é necessário que o contribuinte já tenha desenvolvido os sintomas da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), ou basta o diagnóstico da infecção pelo vírus?

A decisão final da Segunda Turma do STJ, afastou uma interpretação restritiva e formalista da lei, alinhando a aplicação do direito tributário aos princípios constitucionais da isonomia, da capacidade contributiva e da dignidade da pessoa humana. Este artigo analisa essa evolução, que consolidou o entendimento de que a mera condição de portador do HIV — independentemente da manifestação clínica da AIDS — é suficiente para a concessão do benefício fiscal, um verdadeiro triunfo da justiça social sobre o rigor literal.


2. O Embate Hermenêutico: Literalidade da Lei vs. Princípios Constitucionais.

O ponto central da controvérsia residia na interpretação do artigo 6º, inciso XIV, da Lei nº 7.713/1988. Este dispositivo estabelece um rol taxativo de doenças graves que dão direito à isenção do IRPF sobre aposentadoria, reforma e pensão, incluindo a “síndrome da imunodeficiência adquirida” (AIDS).

As instâncias ordinárias, em um primeiro momento, adotaram uma interpretação estritamente literal, amparada pelo artigo 111 do Código Tributário Nacional (CTN), que recomenda tal método para normas que concedem isenção. Sob essa ótica, defendia-se que o benefício estava condicionado à comprovação da doença AIDS em sua fase sintomática, e não à condição de portador do vírus HIV. O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), por exemplo, manteve o indeferimento do pedido do contribuinte sob o argumento de que ele, embora soropositivo, não havia demonstrado ter “somado” a síndrome.

Essa posição, porém, foi superada pelo STJ, que privilegiou uma interpretação sistemática e finalística da legislação. A Corte Superior entendeu que a análise não poderia se restringir à letra da lei, devendo ser iluminada pelos princípios constitucionais do Direito Tributário. O objetivo social da isenção — desonerar cidadãos que enfrentam despesas extraordinárias e permanentes com tratamentos de saúde — e a realidade médica da infecção pelo HIV no século XXI tornaram insustentável a distinção entre portadores assintomáticos e sintomáticos.


3. A Análise do STJ: Isonomia, Finalidade da Isenção e a Realidade do Tratamento.

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O voto do Ministro Relator construiu uma sólida argumentação baseada em três pilares principais, que redefiniram o entendimento sobre o tema:

  1. Aplicação do Princípio da Isonomia (Art. 150, II, da CF): O STJ realizou uma análise estrutural da igualdade tributária. A Corte questionou se existia um “discrimen razoável” (diferença justificável) para tratar de forma distinta dois grupos: (a) contribuintes aposentados com AIDS sintomática e (b) contribuintes aposentados portadores do HIV. Concluiu que não. Ambos os grupos enfrentam a mesma condição de saúde de base (a infecção pelo vírus), requerem tratamento médico contínuo e vitalício (uso de antirretrovirais) e arcam com custos permanentes para manter a qualidade de vida e a saúde. Criar uma distinção tributária entre eles seria, portanto, ofensivo ao princípio da isonomia, pois tributaria de forma mais gravosa uma pessoa que já se encontra em situação de vulnerabilidade em razão de sua condição de saúde.
  2. Objetivo Finalístico da Isenção: A isenção para moléstias graves não é um privilégio, mas um mecanismo de justiça fiscal. Seu propósito é mitigar o impacto financeiro causado por despesas médicas elevadas e contínuas, preservando a capacidade de subsistência do contribuinte. O STJ reconheceu que o tratamento do HIV é crônico e permanente, exigindo acompanhamento médico regular e uso diário de medicamentos, independentemente da carga viral ou da presença de sintomas da AIDS. Negar a isenção ao portador assintomático seria frustrar a própria finalidade do benefício, que é auxiliar no custeio do tratamento.
  3. Súmula 627/STJ e a Desnecessidade da Contemporaneidade dos Sintomas: A decisão está em perfeita sintonia com o Enunciado Sumular nº 627 do STJ, que estabelece: “O contribuinte faz jus à concessão ou à manutenção da isenção do Imposto de Renda, não se lhe exigindo a demonstração da contemporaneidade dos sintomas da doença nem da recidiva da enfermidade”. A aplicação deste entendimento sumular ao caso do HIV consolida que o direito ao benefício nasce com o diagnóstico da condição médica grave, e não com a eclosão de suas manifestações mais agudas.


4. Efeitos Práticos e Procedimento: Restituição, Prazos e Como Requerer.

O acórdão esclareceu importantes aspectos práticos para os contribuintes, detalhados nos próprios Embargos de Declaração analisados:

  • Direito à Restituição (Repetição do Indébito): O STJ deixou claro que o reconhecimento judicial do direito à isenção implica também o direito à restituição dos valores descontados indevidamente a título de IRPF. Esse ressarcimento deve ser calculado desde a data do diagnóstico da infecção pelo HIV, respeitado o prazo prescricional de cinco anos (prescrição quinquenal).
  • Termo Inicial do Benefício: A data de início da isenção obedece a um critério duplo, considerando a data da aposentadoria (pois o benefício só incide sobre esses proventos) e a data do diagnóstico médico. Em síntese, a isenção começa a vigorar a partir do diagnóstico, mas somente sobre os rendimentos percebidos após a aposentadoria.
  • Como Solicitar a Isenção:
    • Via Administrativa: O contribuinte deve reunir documentos (laudo médico completo com CID e data do diagnóstico, RG, CPF) e protocolar o pedido junto ao órgão pagador da aposentadoria (como o INSS, via site ou aplicativo “Meu INSS”).
    • Via Judicial: Caso o pedido administrativo seja negado ou haja demora injustificada, é possível ajuizar uma ação declaratória com pedido de restituição dos valores indevidamente pagos, conforme feito no caso analisado.

A tabela abaixo resume os pontos-chave do procedimento:

AspectoDireito Reconhecido pelo STJBase Legal / Jurisprudencial
Condição para IsençãoSer portador do vírus HIV, independentemente de manifestar sintomas da AIDS.Art. 6º, XIV, da Lei 7.713/88 interpretado conforme Princípio da Isonomia (Art. 150, II, CF).
RestituiçãoDireito à repetição do indébito dos últimos 5 anos, contados da data do diagnóstico.Art. 168 do Código Tributário Nacional (CTN). 
ProcedimentoPedido administrativo ao órgão pagador (INSS) ou ação judicial declaratória.Lei 7.713/88 e Regulamento do IR.
Documentação ChaveLaudo médico oficial com data do diagnóstico e CID da doença (ex.: B20 – Doença pelo HIV).Orientações da Receita Federal e do INSS. A fundamentação legal varia de acordo com o benefício. Segue exemplo de laudo mérdico.

5. Conclusão: Uma Decisão Humanizadora do Direito Tributário.

O julgamento do REsp 1.808.546-DF, simboliza a evolução do Direito brasileiro rumo a uma aplicação mais justa, sensível e alinhada com a realidade social e científica.

Ao afastar uma exegese fria e literal da lei, a Corte valorizou os fins sociais da norma tributária e os princípios constitucionais, garantindo que a política de isenções para doenças graves cumpra seu verdadeiro papel: ser um instrumento de equidade e proteção àqueles que mais precisam.

A decisão reconhece que a luta contra o HIV, com seus tratamentos contínuos e custos permanentes, inicia-se no momento do diagnóstico, e não na deterioração da saúde. Portanto, consolida-se no ordenamento jurídico que a isenção do IRPF é um direito de todo aposentado ou pensionista portador do vírus HIV, assegurando-lhe não apenas um benefício fiscal, mas um gesto de solidariedade e justiça do Estado.


6. REFERÊNCIAS LEGAIS E JURISPRUDENCIAIS:

6.1.. REFERÊNCIAS LEGAIS (LEGISLAÇÃO):

Constituição Federal de 1988 (CF/88) – Art. 150, II:

Estabelece o princípio da isonomia tributária, vedando à União, Estados e Municípios “instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente”[reference:2]. Este foi o princípio constitucional basilar utilizado pelo STJ para afastar a interpretação literal e equiparar portadores de HIV assintomáticos e sintomáticos.


Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/66 – CTN) artigo 111:

Determina que “Interpreta-se literalmente a legislação tributária que disponha sobre: … II – outorga de isenção”[reference:1]. Este artigo fundamentou a interpretação restritiva adotada pelas instâncias ordinárias, posteriormente superada pela aplicação dos princípios constitucionais pelo STJ.


Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, Art. 6º, XIV:

É a norma específica que concede a isenção. Dispõe que estão isentos do Imposto de Renda os “proventos de aposentadoria ou reforma … percebidos pelos portadores de … síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada”[reference:2]. A controvérsia residia na interpretação do termo “síndrome da imunodeficiência adquirida”, se abrangia ou não a condição de portador do vírus HIV (soropositividade) sem manifestação da AIDS.


Lei nº 11.052, de 29 de dezembro de 2004:

Altera a redação do inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713/88, atualizando o rol de doenças graves[reference:3]. Esta lei vigora na data do julgamento e é a base legal aplicável.


6.2. REFERÊNCIAS JURISPRUDENCIAIS (PRECEDENTES):

Jurisprudência do STJ (Recurso Especial do Caso):

RECURSO ESPECIAL Nº 1.808.546 – DF (2019/0101167-7), Relator: Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 20/05/2022:

É a decisão principal. O STJ deu provimento ao recurso do contribuinte, reconhecendo que a isenção do IRPF se aplica desde o diagnóstico de soropositividade para HIV, independentemente da manifestação de sintomas da AIDS[reference:4]. O acórdão fundamentou-se no princípio da isonomia, na finalidade social da isenção e na jurisprudência consolidada do STJ.


Súmula do STJ:

Súmula nº 627 do STJ (Primeira Seção, julgada em 12/12/2018):

Enunciado que pacificou o entendimento de que “O contribuinte faz jus à concessão ou à manutenção da isenção do Imposto de Renda, não se lhe exigindo a demonstração da contemporaneidade dos sintomas da doença nem da recidiva da enfermidade“[reference:4]. Este enunciado foi decisivo para afastar a exigência de manifestação da AIDS.


6.3. Precedentes do STJ Citados no Acórdão (Formadores da Súmula 627).

O julgado listou uma série de precedentes que consolidaram o entendimento posteriormente sumulado, demonstrando a evolução jurisprudencial:

6.4. Precedentes do STJ sobre o Termo Inicial da Isenção e Restituição.

Nos embargos de declaração, o Ministro Relator citou jurisprudência para fixar que o direito à isenção e à respectiva restituição tem início na data do diagnóstico médico, e não na emissão de laudo oficial. Entre os julgados citados estão:


Glossário Jurídico Fundamentado na Isenção do IRPF por Moléstia Grave.

Baseado no julgamento do Recurso Especial nº 1.808.546/DF e na legislação correlata, apresento um dicionário jurídico completo e fundamentado sobre os principais termos e institutos envolvidos:

1. Isenção Tributária (Lei nº 7.713/1988, Art. 6º):

  • Definição Técnica: Benefício legal que exclui a obrigação principal de pagar determinado tributo (no caso, IRPF) sobre fatos geradores específicos (rendimentos de aposentadoria), concedido em razão da condição pessoal do contribuinte (portador de moléstia grave).
  • Fundamentação Jurídica: Diferencia-se da imunidade (limitação constitucional ao poder de tributar) e da não-incidência (fato gerador não alcançado pela lei). A isenção decorre de lei ordinária (art. 150, VI, CF/88) e pode ser revogada ou modificada, respeitados os direitos adquiridos. No contexto da Lei 7.713/88, configura-se como isenção subjetiva condicionada, pois exige comprovação médica específica.
  • Jurisprudência Correlata: REsp 1.235.131/RS: “A isenção por moléstia grave tem caráter personalíssimo, acompanhando o contribuinte mesmo após a aposentadoria”.

2. Princípio da Isonomia Tributária (Art. 150, II, CF/88):

  • Definição Técnica: Vedação constitucional de tratamento desigual entre contribuintes em situação equivalente, aplicável tanto à criação quanto à aplicação de tributos.
  • Fundamentação Jurídica: No caso julgado, o STJ aplicou o teste de razoabilidade para verificar se havia “discrimen razoável” entre: (1) portadores de AIDS sintomática e (2) portadores de HIV assintomáticos. Concluiu pela equiparação, pois ambos os grupos enfrentam: (a) condição médica permanente; (b) tratamento vitalício; (c) despesas médicas elevadas; (d) vulnerabilidade social similar.
  • Estrutura Analítica utilizada pelo STJ:
  1. Sujeitos da comparação: Contribuintes aposentados
  2. Medida de comparação: Portador de moléstia grave
  3. Elemento indicativo: Manifestação ou não dos sintomas da AIDS
  4. Finalidade: Verificar discrimen razoável
  5. Conclusão: Não há diferença justificável para tratamento tributário distinto

3. Rol Taxativo (Art. 111, II, CTN):

  • Definição Técnica: Lista exaustiva e fechada de hipóteses previstas em lei, que não admite ampliação por analogia ou interpretação extensiva.
  • Fundamentação Jurídica: O CTN estabelece que as normas que concedem isenção devem ser interpretadas literalmente (art. 111, II). Entretanto, o STJ no caso analisado aplicou o princípio da interpretação conforme a Constituição, afirmando que “a literalidade não pode ser usada para frustrar a finalidade social da lei nem violar princípios constitucionais”.
  • Jurisprudência Correlata: REsp 1.826.255/SC: “A interpretação literal não pode servir de obstáculo à efetividade dos direitos fundamentais à saúde e à dignidade”.

4. Moléstia Grave (Lei nº 7.713/1988, Art. 6º, XIV)

  • Definição Técnica: Doença de caráter permanente, incurável ou de longa duração, que exige tratamento contínuo e gera elevadas despesas médicas, elencada no rol do art. 6º da Lei 7.713/88.
  • Fundamentação Jurídica: A definição jurisprudencial evoluiu de um conceito estritamente biomédico (foco nos sintomas) para um conceito biopsicossocial que considera: (1) cronicidade; (2) custos do tratamento; (3) impacto na capacidade laborativa; (4) necessidade de acompanhamento permanente.
  • HIV/AIDS na Jurisprudência:
  • Conceito Restritivo (superado): Exigência da AIDS declarada com CD4 abaixo de 200 células/mm³ ou doenças oportunistas.
  • Conceito Atual (STJ): A mera infecção pelo HIV configura moléstia grave, pois: (a) tratamento é vitalício; (b) medicações têm alto custo; (c) requer acompanhamento médico permanente; (d) gera vulnerabilidade social.

5. Prescrição Quinquenal (Art. 1º, Lei nº 9.873/1999)

  • Definição Técnica: Prazo de cinco anos para exercício do direito de repetição do indébito tributário, contado da data em que o contribuinte poderia ter pleiteado administrativamente a restituição.
  • Fundamentação Jurídica: No caso julgado, o STJ aplicou a prescrição de trato sucessivo, considerando que cada desconto mensal forma um débito autônomo, cujo prazo prescricional inicia-se individualmente. A contagem interrompe-se com o primeiro requerimento administrativo (Súmula 362 do STF).
  • Cálculo Prático: Se o diagnóstico foi em 01/01/2010 e o primeiro requerimento em 01/01/2020, a restituição alcança apenas os descontos de 01/01/2015 a 01/01/2020.

6. Contemporaneidade dos Sintomas (Súmula 627/STJ)

  • Definição Técnica: Exigência (superada) de que a doença estivesse ativa e sintomática no momento do requerimento da isenção.
  • Fundamentação Jurídica: A Súmula 627 consagrou o entendimento de que “não se exige a demonstração da contemporaneidade dos sintomas”, pois: (1) muitas doenças graves têm períodos de remissão; (2) o tratamento contínuo controla sintomas sem curar a doença; (3) o ônus financeiro permanece independentemente dos sintomas.
  • Aplicação ao HIV: A isenção aplica-se desde o diagnóstico sorológico, independentemente da carga viral, contagem de CD4 ou presença de sintomas, pois o tratamento antirretroviral é permanente.

7. Repetição do Indébito (Art. 165, CTN)

  • Definição Técnica: Direito do contribuinte de receber de volta valores pagos a título de tributo sem fundamento legal (indenidade), incluindo juros e correção monetária.
  • Fundamentação Jurídica: No caso, a repetição decorre do reconhecimento retroativo do direito à isenção. O termo inicial é a data do diagnóstico médico, não a data do laudo pericial ou da decisão judicial (REsp 812.799/SC).
  • Limites Temporais: Conforme esclarecido nos embargos de declaração do caso analisado: (1) após a aposentadoria; (2) após o diagnóstico; (3) dentro do prazo prescricional quinquenal.

8. Enunciado Sumular (Súmula 627/STJ)

  • Definição Técnica: Decisão da Primeira Seção do STJ que consolida entendimento jurisprudencial sobre determinada matéria, com efeito vinculante para os órgãos fracionários do próprio STJ.
  • Fundamentação Jurídica: Diferencia-se da súmula vinculante do STF (art. 103-A, CF/88), que vincula toda a administração pública e o Poder Judiciário. A Súmula 627 foi editada após a uniformização de precedentes em casos de câncer, Parkinson, esclerose múltipla e, posteriormente, aplicada ao HIV.
  • Texto Integral: “O contribuinte faz jus à concessão ou à manutenção da isenção do Imposto de Renda, não se lhe exigindo a demonstração da contemporaneidade dos sintomas da doença nem da recidiva da enfermidade.”

9. Termo Inicial da Isenção (Jurisprudência do STJ)

  • Definição Técnica: Data a partir da qual o direito à isenção produz efeitos, para fins de não-retenção futura e restituição do passado.
  • Fundamentação Jurídica: Fixado pelo STJ como a data do primeiro diagnóstico médico que comprova a moléstia grave (REsp 1.584.534/SE), desde que posterior à data da aposentadoria (pois só incide sobre proventos).
  • Diferenciações Importantes:
  • Diagnóstico Médico ≠ Laudo Pericial: O primeiro pode ser anterior e determina o direito; o segundo apenas comprova judicialmente.
  • Aposentadoria ≠ Diagnóstico: Se diagnóstico for anterior à aposentadoria, o termo inicial é a data da aposentadoria.

10. Interpretação Conforme a Constituição

  • Definição Técnica: Método hermenêutico que busca dar à lei o sentido que a torne constitucional, evitando sua declaração de inconstitucionalidade.
  • Fundamentação Jurídica: Aplicado pelo STJ para compatibilizar a literalidade do art. 6º, XIV (exigindo “AIDS”) com os princípios constitucionais da isonomia, dignidade humana e saúde. A expressão “síndrome da imunodeficiência adquirida” foi interpretada para incluir todas as fases da infecção pelo HIV.
  • Fórmula Jurídica Adotada:

“Interpreta-se o termo ‘AIDS’ no art. 6º, XIV, da Lei 7.713/88, em conformidade com os arts. 1º, III (dignidade), 6º (saúde) e 150, II (isonomia) da CF/88, para abranger a infecção pelo HIV em qualquer fase, independentemente da manifestação de sintomas.”

11. Direito Adquirido (Art. 5º, XXXVI, CF/88):

  • Definição Técnica: Situação jurídica consolidada sob a vigência de determinada lei, que não pode ser atingida por lei posterior.
  • Fundamentação Aplicada: Uma vez concedida a isenção por moléstia grave, forma-se direito adquirido à manutenção do benefício, mesmo que a doença entre em remissão. A Súmula 627 garante que “não se exige […] recidiva da enfermidade”.
  • Exceção: A perda do direito só ocorre com a cura comprovada por laudo médico, conforme regulamentação da Receita Federal.

12. Ônus da Prova (Art. 373, CPC/2015):

  • Definição Técnica: Incumbência de provar os fatos constitutivos do próprio direito.
  • Fundamentação Jurídica: Na ação de isenção, cabe ao autor comprovar: (1) condição de aposentado/pensionista; (2) diagnóstico de moléstia grave constante do rol legal; (3) data do diagnóstico. Não cabe comprovar: (a) contemporaneidade dos sintomas; (b) gravidade atual da doença; (c) custos específicos do tratamento.

Este dicionário fornece base sólida para atuação jurídica na área, refletindo o estado atual da jurisprudência do STJ sobre isenção do IRPF por moléstia grave, com especial atenção à infecção pelo HIV.


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