Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Crime de Falsa Identidade: STJ Define Consumação no Momento da Conduta e Impactos no Direito Penal. Entenda Por Que Mentir Sobre Nome Já Configura Crime, Mesmo Sem Prejuízo Concreto.

1. Introdução.

O crime de falsa identidade, previsto no artigo 307 do Código Penal (CP), é um delito que gera controvérsias quanto ao seu momento de consumação e natureza jurídica. Recentemente, o Recurso Especial nº 2083968 – MG (2023/0234917-5), julgado pelo Ministro Joel Ilan Paciornik, reafirmou o entendimento de que se trata de um crime formal, cuja consumação ocorre com a simples atribuição de dados falsos, independentemente de qualquer resultado naturalístico.

Neste artigo, analisaremos os fundamentos jurídicos desse julgamento, explorando:

  1. A natureza jurídica do crime de falsa identidade;
  2. O momento da consumação;
  3. A jurisprudência consolidada do STJ e STF;
  4. A aplicação no caso concreto.


2. O Crime de Falsa Identidade no Artigo 307 do CP.

O artigo 307 do CP define o crime da seguinte forma:

“Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a outrem.”

2.1. Bem Jurídico Tutelado.

O delito em questão protege a fé pública, especificamente a confiança nas relações sociais quanto à veracidade da identidade pessoal. Como explica Luiz Regis Prado (2021), a norma visa garantir a segurança nas interações jurídicas, evitando que pessoas adulterem suas identidades para fins ilícitos.

2.2. Elementos do Tipo Penal.

  • Conduta: Atribuir-se ou atribuir a outrem falsa identidade.
  • Elemento subjetivo: Dolo (vontade consciente de enganar).
  • Finalidade específica: Obter vantagem (própria ou alheia) ou causar dano.

Importante destacar que, embora a lei exija uma finalidade específica, a obtenção efetiva da vantagem ou do dano não é necessária para a consumação do crime, conforme entendimento do STJ.


3. Natureza Formal do Crime de Falsa Identidade.

3.1. Diferença Entre Crimes Materiais, Formais e de Mera Conduta.

  • Crime material: Exige um resultado naturalístico (ex.: homicídio, que requer a morte da vítima).
  • Crime formal: Consuma-se com a conduta, independentemente de resultado (ex.: falsa identidade).
  • Crime de mera conduta: Não há resultado jurídico a ser produzido (ex.: desobediência).

No caso do art. 307 do CP, o STJ e a doutrina majoritária (Nélson Hungria, Rogério Greco) entendem que se trata de um crime formal, pois a consumação ocorre no momento em que o agente fornece a falsa identidade, mesmo que não obtenha a vantagem ou cause o dano pretendido.

3.2. Posicionamento do STJ no Recurso Especial nº 2083968 – MG.

O Ministro Joel Ilan Paciornik reafirmou que:

“O delito de falsa identidade é crime formal, que se consuma quando o agente fornece, consciente e voluntariamente, dados inexatos sobre sua real identidade, e, portanto, independe da ocorrência de resultado naturalístico.”

Isso significa que, mesmo que o agente se retrate posteriormente (como no caso em análise, em que o réu revelou sua verdadeira identidade antes do registro do BO), o crime já está consumado.


4. Jurisprudência Consolidada: STJ e STF.

4.1. Súmula 522 do STJ.

“A conduta de atribuir-se falsa identidade perante autoridade policial é típica, ainda que em situação de alegada autodefesa.”

Isso significa que o direito ao silêncio (art. 5º, LXIII, CF) não autoriza mentir sobre a identidade.

4.2. Tema 478 do STF (Repercussão Geral).

O STF firmou entendimento de que a autodefesa não justifica a falsa identificação, especialmente quando o agente busca ocultar antecedentes criminais.

4.3. Precedentes do STJ.

  • REsp 1.362.524/MG: Reafirma que o crime se consuma com a conduta, independentemente de resultado.
  • HC 821.195/SP (Rel. Min. Paciornik): A falsa identidade é típica mesmo em abordagem policial.


5. Caso Concreto: A Absolvição Reformada pelo STJ.

a figurine of the lady justice on the table of a judge
Photo by KATRIN BOLOVTSOVA on Pexels.com

No caso analisado no REsp 2083968 – MG, o TJ/MG havia absolvido o réu sob o argumento de que:

  • Ele forneceu nome falso na abordagem, mas revelou a verdadeira identidade antes do registro do BO;
  • Não houve repercussão administrativa ou penal;
  • Aplicou-se o arrependimento eficaz (art. 15, CP).

5.1. Por Que o STJ Reformou a Decisão?

O STJ entendeu que:

  • O crime é formal, logo, a consumação ocorreu no momento da falsa declaração.
  • O arrependimento eficaz não se aplica, pois o delito já estava consumado.
  • A ausência de dano não descaracteriza o crime, pois este não exige resultado naturalístico.


6. Conclusão: Impacto do Julgamento.

judgement scale and gavel in judge office
Photo by Sora Shimazaki on Pexels.com

O julgamento do REsp 2083968 – MG reforça que:

  • O crime de falsa identidade é formal – consuma-se com a conduta, não exigindo dano ou vantagem efetiva.
  • A retratação posterior não exclui o crime, pois a tipicidade já foi configurada.
  • Jurisprudência consolidada: STJ e STF são unânimes em considerar típica a conduta, mesmo em abordagem policial.

Portanto, mentir sobre a identidade em qualquer contexto (inclusive perante autoridades) configura crime, independentemente de posterior correção.


Fonte STJ:

RECURSO ESPECIAL Nº 2083968 – MG (2023/0234917-5)

Comente o que achou. Deixe a sua crítica, elógio, sugestão, pois sua participação é muiro importante.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja Mais

Artigos Relacionados:

Servidor Público com Vínculo Contínuo: O Direito de Escolha entre Regimes Previdenciários.

Servidor Público com Vínculo Contínuo: O Direito de Escolha entre Regimes Previdenciários.

Entenda a decisão do STF que garante ao servidor público com vínculo contínuo o direito de optar entre o regime de previdência complementar e o sistema anterior, com base no

Usucapião Especial Urbana e a Perspectiva de Gênero: Análise do Art. 183 da CRFB/1988 e Art. 1.240 do Código Civil sob a Ótica da Resolução CNJ n. 492/2023.

Usucapião Especial Urbana e a Perspectiva de Gênero: Análise do Art. 183 da CRFB/1988 e Art. 1.240 do Código Civil sob a Ótica da Resolução CNJ n. 492/2023.

Artigo doutrinário sobre usucapião especial urbana, analisando requisitos constitucionais e legais, animus domini, interversio possessionis e julgamento com perspectiva de gênero conforme Resolução CNJ n. 492/2023, com base em jurisprudência

Usucapião entre Ascendentes e Descendentes: Limites da Posse Familiar e o Entendimento do STJ.

Usucapião entre Ascendentes e Descendentes: Limites da Posse Familiar e o Entendimento do STJ.

Entenda por que o STJ nega, em regra, a usucapião extraordinária de imóvel de ascendente ocupado por descendente. Análise da posse precária, do animus domini e das exceções jurisprudenciais. PALAVRAS

Sursis Obrigatório em Violência Doméstica: Grupos Reflexivos e o Poder-Dever do Magistrado.

Sursis Obrigatório em Violência Doméstica: Grupos Reflexivos e o Poder-Dever do Magistrado.

Entenda como o STJ firmou o poder-dever do juiz de impor grupos reflexivos como condição do sursis em casos de violência doméstica, com base no art. 79 do CP e

A Reconvenção no Processo do Trabalho: O Contrato como Liame de Conexão e a Superação da Exigência de Afinidade Temática.

A Reconvenção no Processo do Trabalho: O Contrato como Liame de Conexão e a Superação da Exigência de Afinidade Temática.

Entenda como a jurisprudência do TST consolidou a reconvenção no processo do trabalho, superando a exigência de afinidade temática. Análise do art. 343 do CPC, do contrato de trabalho como

O Novo Regime de Custas do Recurso Especial: A Lei 15.498/2026 e a Virada Proporcional no STJ.

O Novo Regime de Custas do Recurso Especial: A Lei 15.498/2026 e a Virada Proporcional no STJ.

Entenda como a Lei 15.498/2026 transformou a cobrança de custas do recurso especial no STJ, substituindo valores fixos por alíquotas de 2% a 4% sobre o valor da causa, com

A Resilição Unilateral de Conta-Corrente por Iniciativa da Instituição Financeira: Análise do Tema 1.119 do STJ.

A Resilição Unilateral de Conta-Corrente por Iniciativa da Instituição Financeira: Análise do Tema 1.119 do STJ.

Análise doutrinária e jurisprudencial do Tema 1.119 do STJ, que fixou a inaplicabilidade do art. 39, IX, do CDC à resilição unilateral de conta-corrente bancária, com base na legislação especial

Perda pequena de capacidade não afasta direito a pensão mensal de operador de máquinas.

Perda pequena de capacidade não afasta direito a pensão mensal de operador de máquinas.

Entenda por que o TST garante pensão mensal ao trabalhador com perda parcial mínima da capacidade laborativa, mesmo com nexo concausal e aptidão para outras funções, com base no art.

A Gravação Ambiental como Prova no Processo Civil Brasileiro: A Licitude da Captação por Consumidor no Ambiente Corporativo à Luz do Estatuto da Advocacia.

A Gravação Ambiental como Prova no Processo Civil Brasileiro: A Licitude da Captação por Consumidor no Ambiente Corporativo à Luz do Estatuto da Advocacia.

Análise doutrinária e jurisprudencial sobre a admissibilidade da gravação ambiental feita por consumidor no departamento jurídico de empresa, à luz do REsp 1.969.798/DF, do art. 7º da Lei 8.906/94 e

Do Afeto ao Direito das Coisas: A Custódia Compartilhada de Animais de Estimação na Jurisprudência do STJ.

Do Afeto ao Direito das Coisas: A Custódia Compartilhada de Animais de Estimação na Jurisprudência do STJ.

Análise doutrinária e jurisprudencial sobre a custódia compartilhada de animais de estimação após a dissolução da união estável, com base no REsp 2.214.336/DF do STJ, que afastou a aplicação analógica